PESSOAS INVISÍVEIS

NA MARGEM DA SOCIEDADE

O desafio
O QUE LEVA UMA PESSOA A ESSA SITUAÇÃO?

Para o sociólogo, Davi Moreno, professor do Instituto Federal do Ceará (IFCE) e estudioso das causas sociais que estimulam o aumento de pessoas em situação de rua, os conflitos são reflexos de uma desestrutura familiar que acarreta diversos desequilíbrios, desde os emocionais aos econômicos, mas que não se limitam apenas a visão estereotipada sobre os modelos familiares. "Uma família estruturada não é necessariamente desenhada por pai, mãe e filhos. Para ser estruturada, depende de um conjunto de outros elementos que envolvem desde a atenção devida de trabalho da pessoa. Ou seja, uma boa relação entre os familiares, e a educação é primordial para isso" ressalta.

 

Além da questão do rompimento dos laços familiares e comunitários, a drogadição também é muito sistemática e facilitadora nesse processo de desabrigo. A questão financeira se torna igualitariamente um fator de potencialização deste número. Ademais, outras questões podem levar as pessoas a esse quadro, abrangendo mais a questão sentimental, como desilusões amorosas ou problemas de saúde mental.

 

Davi também levantou um questionamento importante e comum principalmente nas capitais do nordeste: o êxodo Rural, frequente aqui no estado do Ceará, sobretudo no começo do século XX, que também se tornou um fator influenciador: “É comum que a maioria das pessoas crie um imaginário do homem do campo que é expulso por conta da seca, da miséria, entre outros fatores, e aí ele procura os grandes centros urbanos para ter uma melhor vida, melhores condições, etc. Nos últimos 20 anos, sobretudo os últimos 15 anos, houve um influxo desse tipo de movimento, ou seja, ele reduziu, muito por conta de um conjunto de políticas públicas que foram feitas nesses espaços, sobretudo no semiárido e no sertão do país”.

 

QUAL O PAPEL DO MUNICÍPIO? 

 

O sociólogo indicou que conversássemos sobre as políticas públicas realizadas na capital com o Sr. Claudio Ricardo, atual Presidente da Fundação de Ciência, Tecnologia e Inovação (Citinova), órgão da Prefeitura de Fortaleza, que atuou de 2013 a 2016 como Secretário do Trabalho, Desenvolvimento Social e Combate à Fome (Setra), onde desempenhou diversas atividades juntamente a Prefeitura de Fortaleza em busca de melhorar as condições das diversas pessoas que se encontravam sem uma residência e alheias às ruas da capital cearense: “Quando fui eleito à época presidente do Conselho dos Gestores da Assistência Social (Coegemas) em todo o estado a primeira gestão do prefeito Roberto Cláudio. O objetivo era realizar uma política para população mais aprofundada e mais abrangente para as pessoas em situação de rua em Fortaleza. Começamos o trabalho, abrimos mais um Centro POP, no Benfica, criamos uma Pousada Social para abrigar as pessoas por pernoite, um Centro de Convivência para pessoas em situação de rua, programas de desenvolvimento das Artes, um abrigo para Famílias com crianças, entre outros”.

 

Ricardo conta que no início da gestão, foram feitos diversos levantamentos quanto ao número de indivíduos que se encontravam em situação de rua em Fortaleza: “Quando nós iniciamos a gestão, ouvíamos que havia aumentado muito o número de pessoas desabrigadas na capital e falava-se muito em números que ninguém sabia de onde exatamente teriam sido tirado. A estimativa era de 4 mil pessoas a 5 mil pessoas em situação de rua e uma das primeiras atitudes que fizemos foi contactar a Universidade Federal do Ceará e realizamos um censo da população de rua em 2013. Levantamos a pesquisa, investimos no estudo e chegamos a um número bem menor do que se falava, que girava em torno de 1200 pessoas. Embora fosse um número menor do que o que se dizia na época, ainda é um número significativo de homens e mulheres passando passando por essa situação. Nossa intenção era não somente realizar o Censo da população de rua, mas também identificar as principais razões pelas quais estavam nesse quadro e também os locais onde mais se localizavam”.

 

Mas para entender a situação, é preciso ter uma estudo para que depois políticas-públicas sejam realizadas. A vereadora de Fortaleza Larissa Gaspar (partido), é presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara Municipal de Fortaleza, para ela, esse índice deve ter triplicado nos últimos quatro anos, "Com o aumento do desemprego, com os desmonte das políticas-públicas, com corte dos investimento em saúde, educação, assistência e direitos humanos, isso tem um reflexo nas pessoas que vivem nas ruas", enfatiza.

 

A vereadora Larissa lembra que existe um trabalho em conjunto com a defensoria pública na fiscalização dos abrigos sociais. “Nós recebemos muitas denúncias, a falta de infraestrutura é a principal delas, pra você ter uma noção, algumas casas de passagens não possuem banheiros separados, ou seja, homens e mulheres dividem os mesmos espaços, em algum deles, faltava inclusive portas. A gente quer garantir os direitos dessas pessoas”.

 

Esse tema é tão complexo que alguns projetos apresentados demoram até dois anos para serem aprovados, para você entender. Após a vereadora escrever e detalhar o projeto, ele precisa passar pela Comissão de Constituição e Justiça, depois de aprovado pelo relator, vai para a Comissão Temática (Direitos Humanos), só depois é que o projeto vai para votação no plenário. “A gente tenta agilizar o máximo possível, mas não depende só da gente, pra você ter uma ideia, existem alguns projetos na área de infraestrutura que demora menos de duas semanas para ser aprovado pelos vereadores”, ressalta.

 

Existe um projeto tramitando também relacionado a locação social. Hoje, o benefício é deferido pela Habitafor e pela Defesa Social, mas a vereadora acredita que a Secretaria de Direitos Humanos é quem deveria ser a ordenadora desses alugueis. “Existem pessoas nas ruas e que demandam desses alugueis. Além disso o número de benefícios e abrigos deveriam ser aumentados”.

 

Além dos abrigos oferecidos pela prefeitura, Organizações Não Governamentais também prestam apoio a pessoas em situação de Rua. Vários grupos oferecem sopões, nos mais diversos bairros da Capital, principalmente, na praça do Ferreira, local que abriga centenas deles.

No bate papo com Cláudio Ricardo, o ex-Presidente do Coegemas, ele lembra que os trabalhos sociais da prefeitura voltados à assistência aos moradores em situação de rua tiveram uma certa deterioração por conta da desarticulação da política de assistência social  a partir do início do governo Temer: “Houve um retrocesso claro se comparado ao governo Lula. No governo Temer os recursos diminuíram bastante e agora acho também que continuam muito limitados. Mas o mais grave é a visão que o atual Governo Federal tem dois problemas sociais”.

Atendimento Social 

Lila Mota é uma socióloga e há seis anos faz ações voltadas para pessoas em situação de rua. Ela nos contou como sua vida deu essa reviravolta, “ Fui me confessar com um padre, era católica light, pensei, vou tacar freud na cabeça dele (rindo), eu estava dizendo várias loucuras, rindo com ele, e no meio da confissão ele disse: você vai viver a pobreza, a castidade. Toda vida eu me emociono, descobri que tenho o dom do serviço, então para cumprir o chamado de Deus na minha vida, fui pra rua cozinhar para os moradores de rua, construir esse almoço, era convidada por eles e depois fazia o almoço para eles”.

A socióloga passou a interagir com eles de forma que começaram a se sentir bem com sua presença, “Quando eu me fiz um com eles, sem nunca dizer nada, depois do almoço eu fui puxar carroça com eles, eu pensava ‘meu Deus, quando as pessoas me verem no meio da rua, eu sempre tô de chapéu, as pessoas vão se perguntar o que eu tava fazendo ali, mas ninguém nunca me viu’, depois disso, eu vi na prática como eles são completamente invisíveis, ninguém olha para morador de rua, ninguém sabe qual a necessidade deles, então foi nessa construção com eles que eu comecei a fazer o almoço”

Pastoral da Rua

“Uma pastoral social sempre vai nascer de uma realidade gritante, uma realidade que desafia vidas, que destrói vidas e a pastoral reconstrói.” A Pastoral do Povo da Rua é um trabalho social mediado pela Igreja Católica com início em 2002 a partir do padre Junior Aquino que conheceu o projeto em Belo Horizonte e começou sua luta para trazer para cá.

Para iniciar o trabalho, começaram com visitas às ruas, conhecendo a realidade. Após muito estudo, em 2004, oficializaram a pastoral. O trabalho acontece na perspectiva de estar junto ao povo da rua, caminhando ao lado deles, percebendo que eles também têm histórias de vida, uma trajetória e, juntamente, com eles desenvolvem ações, projetos para transformação de vida. O trabalho social é apenas com voluntários também apaixonados pela vida e pela tentativa de transformar a vida deles. As segundas tem uma parceria com o curso de psicologia da Unifor que eles tratam toda a questão do resgate da pessoa, a integração na sociedade. As quartas são as políticas públicas e, na sexta, oração com ação.

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